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O Programa H, que visa o envolvimento de homens jovens na promoção da eqüidade de gênero, chegou em solo africano em 2006. O encontro do Programa, desenvolvido no contexto latino-americano, e a África foi possível a partir de um estudo que o Promundo desenvolveu para o Banco Mundial [Homens jovens e a construção da masculinidade na África subsaariana: recortes em HIV/AIDS, conflito e violência]. A pesquisa, realizada por Gary Barker, Diretor Executivo, e Christine Ricardo, Coordenadora do Programa Gênero e Saúde do Promundo, revelou como comportamentos associados aos padrões tradicionais de masculinidade na região podem influir na perpetuação da violência e na expansão do HIV na África.
Para mudar, é preciso saber o que significa ser homem na África
Gênero se refere à forma como as pessoas são socializadas, como se comportam e atuam, enfim, como se tornam homens e mulheres. Refere-se, sobretudo, à construção dos papéis de homens e mulheres na sociedade. Em muitas regiões da África, desde cedo os meninos são educados para trabalhar, formar e sustentar sua família. Porém, o casamento está vinculado ao fato de o homem ter renda ou propriedade. Porque para casar, o homem africano tem que presentear a família da noiva com algum bem material. Sem trabalho e dinheiro, a sociedade do continente mais pobre do planeta não reconhece o jovem africano como homem. “Sem reconhecimento social de sua masculinidade, o jovem africano usa uma válvula de escape. No contexto carioca, a válvula é o tráfico de drogas; na Libéria, há outras forças criminosas, forças de guerrilha”, diz Gary Barker, diretor executivo do Promundo.
Homens e o conflito
A Organização das Nações Unidas confirma um aumento sem precedentes do envolvimento de jovens em conflitos armados na década passada. Números da entidade, de 2005, estimam que 300 mil crianças e jovens estejam ativamente ligados a conflitos armados no mundo. De acordo com a ONU, na África, a participação de homens jovens em combates é tão grande que as crianças-soldado são praticamente vistas como parte do cenário. A questão é que o envolvimento de crianças no conflito armado tem contribuído para que os meninos sejam educados sob rígidas normas de gênero que envolvem, principalmente, a violência. Em algumas regiões da África, a participação de homens em conflitos e o uso da violência impedem que meninos e rapazes enxerguem outros caminhos para que sua masculinidade seja socialmente aceita. Com isso, formas extremas de violência e brutalidade em áreas de conflito podem até ser vistas como atitudes “louváveis”.
O comportamento violento – erroneamente interpretado como “coisa de homem” – é reforçado pelas estruturas sociais nos níveis comunitário e familiar que o transmitem como modelo, incutindo-o nos meninos e homens jovens por meio de ameaça, força, violência, constrangimento etc. Grupos insurgentes têm se aproveitado da vulnerabilidade das famílias para modificar e traumatizar a juventude com experiências violentas associadas ao poder. Drogas e álcool também são utilizados com freqüência nessa doutrinação. Uma das mais graves conseqüências desse controle mental é o uso da brutalidade e da violência na relação com mulheres e com a própria família.
Masculinidades e mulheres
Percepções e definições deturpadas sobre o que é violência contra a mulher tornam a coação, a ameaça verbal e o sexo forçado práticas socialmente sancionadas como extensão da autoridade masculina no âmbito privado. Isso porque a segregação racial forçou a migração do homem negro do campo para as cidades em busca de emprego – uma vez que o cultivo em áreas semideséricas não garantia a subsistência das famílias. A saída do homem do contexto familiar tornou os laços entre os casais cada vez mais efêmeros. “Para a mulher que ficou na área rural, cuidando da família, era muito importante manter os vínculos afetivo e financeiro com o marido porque ela era responsável pela criação de quatro ou cinco filhos (geralmente a mulher engravidava a cada visita do marido) e não podia viver apenas da agricultura. Com o fim do apartheid, o movimento migratório diminuiu, mas deixou de herança uma cultura construída com a idéia de que os homens migram, os laços familiares são efêmeros e que a mãe cuida da família”, explica Gary Barker, um dos autores do estudo para o Banco Mundial.
Essa situação vulnerabilizou a mulher africana que, atualmente, se vê concorrendo com outras pelo homem que tem emprego. A vulnerabilidade financeira da mulher neste contexto faz com que ela tenha uma visão equivocada sobre a violência doméstica, interpretando-a inclusive como indicador do envolvimento do homem na relação. “Para elas, o homem poderia simplesmente sumir deixando-as numa situação de pobreza muito pior do que aquela em que se encontram”, completa Gary.
Há avanços nessa área. A percepção sobre a violência começa a ser reformada. Gary Barker e Christine Ricardo, Diretor Executivo e Coordenadora do programa de Gênero e Saúde do Promundo, respectivamente, encontraram homens corajosos que participam de projetos relacionados à promoção da eqüidade de gênero. Eles assumiram a participação naquela cultura que permite, cria e fomenta aspectos negativos relacionados à masculinidade e agora reconhecem que a violência não é o caminho. “Alguns deles participaram de documentários autobiográficos, onde afirmaram viver em uma sociedade que valoriza quem tem emprego. Em um dos relatos, o jovem disse ter perdido o emprego. Depois, passou a beber e a bater em sua mulher. Finalmente, largou a família. Viu o filho pela última vez quando ele tinha dez anos. E por isso, estava ali dizendo que eles – homens africanos – tinham que conversar com outros homens para mudarem”, relata Gary.
Outra melhora é na legislação. Algumas iniciativas já buscam mobilizar líderes governamentais por leis para coibir a violência doméstica e para estabelecer uma idade mínima para o casamento.
Suggar-daddy
Na tradicional construção da sexualidade masculina, quanto mais parceiras o homem tiver, melhor. “A herança desse comportamento é a questão da mulher como consumo. O homem tem a esposa que a família dele ‘comprou’, que fica em casa, e também as meninas com as quais ele se relaciona fora do casamento, muitas vezes pagando por elas”, afirma Gary.
Na África, Gary e Christine encontraram um fenômeno semelhante ao da garota de programa explicado através da figura do “suggar-daddy”; ou seja, um homem mais velho que leva mulheres muito jovens de carro à escola, oferece a ela alguns presentes, como vestidos, e dá alguma ajuda financeira em troca de sexo. O fato não é novo, porém, o problema se acentua de acordo com a pobreza do local.
A pobreza é mais um fator que produz efeitos na expansão do HIV na África. Dados da ONU, de 2005, apontam que há 10 milhões de pessoas jovens vivendo com HIV/AIDS no mundo. Desse total, 6,2 milhões estão na África Subsaariana, sendo que 76% desse número são formados por mulheres e, entre elas, as mais vulneráveis são as mulheres jovens.
No continente, a família decide quando a mulher vai casar. Normalmente, as africanas se casam aos 14 ou 15 anos com homens de 30 ou 40 anos. Antes do casamento, além de eventuais relações sexuais com o “suggar-daddy”, a menina tem um namorado da sua faixa-etária com o qual ela tem relações sexuais. Em alguns países da África Subsaariana, cerca de 38% das adolescentes de 15 a 19 anos não casadas mantiveram relações sexuais por dinheiro ou em troca de bens. “Está formado o ciclo cultural da disseminação do HIV/AIDS na África. A menina “transa” com um homem bem mais velho, que tem a vida sexual ativa há mais tempo do que ela, com mais chances de estar contaminado por HIV/AIDS. Ela também tem relações sexuais com os meninos da idade dela, que por sua vez, transam com outras meninas da mesma faixa etária. Ou seja, você tem um circuito formado que explica a taxa de 25 a 30% de infecção por HIV na África do Sul ou em Zâmbia, por exemplo. “Seria difícil imaginar um sistema mais eficiente para propagar uma doença do que essa vulnerabilidade econômica e de gênero”, conclui Gary.
Homens jovens e HIV na África Subsaariana
A iniqüidade de gênero combinada com modelos de rígidos de socialização dos homens jovens influenciam o comportamento sexual. Normas de masculinidade e sexualidade – as mesmas que sustentam como incontroláveis as necessidades sexuais do homem, o número elevado de parceiras como evidência de proeza sexual, e a dominação sobre a mulher (psicológica e física) – têm colocado homens e mulheres jovens no mais alto risco de infecção por HIV.
Idéias destorcidas sobre prevenção, incluindo o uso da camisinha e a doença em si, agravam a questão do HIV/AIDS na África. Os níveis de uso e acesso ao preservativo na África são baixos e agravados pela valorização do sexo sem camisinha. Gary explica que ter alguma doença sexualmente transmissível é um marco de passagem para a fase adulta, pois significa que o rapaz mantém relações sexuais. Entretanto, ele lembra que enquanto ter uma DST pode ser motivo de orgulho, ter AIDS é motivo de estigma.
Poucas famílias associam o elevado número de óbitos à AIDS. Gary conta que aproximadamente 90% dos enterros realizados em Sowetto, região da África do Sul, são decorrentes da AIDS. Porém, as famílias dizem que o óbito foi por outras causas e não por complicações decorrentes da AIDS. “O certificado de óbito diz AIDS, mas a população não conta essa história. A população não assume isso”, diz Gary.
O número de pesquisas sobre homens jovens que vivem com HIV na região é reduzido e não há muitos serviços para apoiar homens infectados que, em regra, relutam para revelar se estão ou não infectados com HIV e são menos cuidadosos do que as mulheres com relação à saúde em geral. Dificilmente, homens que assumiram a infecção estão trabalhando. A construção civil, por exemplo, maior empregadora da África, acredita que apenas homens fracos são infectados e, em sendo fracos, esses homens não são adequados para o trabalho na área.
Viver com HIV/AIDS
Há dois anos, países como África do Sul e Uganda oferecem anti-retrovirais, mas a cobertura é baixíssima. A percepção sobre HIV/AIDS na África é de uma doença letal e não crônica. Isso porque ainda não há uma geração de pessoas com HIV/AIDS para dizer que recebem e fazem o tratamento e conseguem viver bem. Gary e Christine entrevistaram, no decorrer da pesquisa, a primeira geração de homens jovens com HIV/AIDS casados com mulheres também soropositivas e que estavam grávidas de fetos soronegativos ou tiveram filhos soronegativos. “Eles tomaram os anti-retrovirais e controlaram suas taxas. Quando elas estavam bem baixas, o casal engravidou. As mulheres tomaram AZT durante a gestação e tiveram seus filhos soronegativos. Mas isso é muito recente. É a primeira vez que acontece. Por isso não há uma idéia da normalidade de AIDS”, esclarece Gary.
Cuidado
Uma idéia relacionada à formação de masculinidades é a de que homens não são predispostos a cuidar de si, tampouco de outras pessoas. Na África, esse comportamento causa um significativo comprometimento do tratamento do HIV/AIDS. Constata-se que poucos homens jovens buscam saber sua condição com relação ao HIV porque acreditam que as clínicas de saúde são espaços de mulheres e que o “homem de verdade” não pega doença.
Na África do Sul, país com a mais sólida oferta de serviços de saúde e de anti-retrovirais do continente, as mulheres buscam e recebem o tratamento. Em casa, elas dividem o tratamento – desenvolvido especificamente para elas – com o marido. “Ele não vai se tratar. Ele não vai verificar se está ou não infectado. Ele não verifica a carga viral. Ele não vai ao serviço de saúde para ter um regime de tratamento próprio para ele. Acontece que se os anti-retrovirais não forem tomados adequadamente podem até aumentar a carga viral da pessoa infectada”, esclarece Gary.
O que pode e está sendo feito
“Vamos trabalhar numa África cuja estrutura social obriga o homem a ser provedor e que, por ser provedor, ele tem o poder. É uma estrutura que obriga o homem a ter dinheiro para “pagar” por sua noiva, e que por ter dinheiro, ele tem direito às meninas mais novas. A estrutura acha normal que um homem com trinta e poucos anos tenha relações sexuais ou se case com uma menina de 14. São essas questões vistas como normais que precisam ser questionadas”, diz Gary.
Atualmente, na África, percebe-se a tendência de culpabilizar o homem pela AIDS. É certo que 98% da transmissão africana de AIDS ocorrem através da relação sexual entre heterossexuais ou pela via vertical, ou seja, de mãe para filho. Isso quer dizer que praticamente toda mulher soropositivo teve relações sexuais com um homem soropositivo. Gary explica que os números enganam neste sentido. “Há atrás dessa mulher um homem soropositivo, que pode ter infectado várias mulheres. Contudo, essas mulheres também podem ter infectado outros homens. Sobre essa questão é importante pensar sobre o que torna as mulheres jovens tão vulneráveis. Não se pode simplesmente dizer que os homens são predadores sexuais. Oferecemos uma alternativa não-violenta para a promoção de uma mudança de comportamento que vitimiza tanto os homens quanto as mulheres africanos. Coloca-se a culpa inteira nos homens e se inicia um complô contra o homem africano ao invés de sugerir, por exemplo, uma auto-reflexão sobre o que é visto tradicionalmente como normal nas culturas africanas”, esclarece Gary.
Numa escola da Nigéria, Christine e Gary formaram aleatoriamente um grupo de 20 homens jovens. A maioria dos rapazes reproduziu as mesmas opiniões estereotipadas sobre mulheres e homens repassadas, no contexto familiar, de geração em geração, tais como: o comportamento dos homens jovens na África está certo; as mulheres podem ser compradas; as mulheres são mais fracas; o homem tem que ser provedor etc. Entretanto, um rapaz não concordou. Christine e Gary perguntaram por quê. Na família desse rapaz, as mulheres tinham os mesmos direitos dos homens. A primeira pessoa da família dele a fazer doutorado foi uma prima, ou seja, uma mulher. O rapaz revelou que uma vez seu pai bateu em sua mãe e ouviu dos homens da família que aquele comportamento estava errado. Resultado: o depoimento do rapaz fez os outros repensarem sobre suas atitudes.
“Vamos trabalhar com esses exemplos de homens jovens cujas histórias representam caminhos através dos quais outros rapazes podem questionar e calcular o custo das normas que são adotadas atualmente”, diz Gary ressaltando, ainda, a importância de que as normas sejam questionadas por homens jovens africanos. “Estamos falando sobre homens africanos, portanto, os homens africanos precisam opinar sobre isso”, enfatiza.
Mudanças das normas de gênero são lentas e acontecem mais lentamente porque as pessoas que desenvolvem programas ou tomam decisões geralmente têm seus próprios conceitos sobre gênero e freqüentemente resistem a questioná-los. Entretanto, Christine destaca que em Uganda e na Tanzânia, países que estão recebendo o Programa H, as ações estão sendo desenvolvidas por meio de parcerias com órgãos governamentais.
Para promover reflexões sobre comportamentos associados a gênero é necessário entender o contexto africano e perceber o que precisa ser modificado. Além disso, é imperativo lembrar que os homens e as mulheres africanos serão os protagonistas da mudança. Para o Promundo e seus parceiros do Programa H, cabe contribuir com os países do sul, oferecendo iniciativas com eficácia comprovada e, como diz Christine, esperar “que as estratégias sejam adaptadas e implementadas em larga escala por diversos parceiros locais”.
A importância da pesquisa para as ações do Promundo na África hoje
A pesquisa para o Banco Mundial foi fundamental para as ações de adaptação do Programa H na África por fornecer dados importantes sobre como são construídas as inúmeras masculinidades africanas. Além disso, foi por meio desse estudo que o trabalho do Promundo pôde ser conhecido pelas instituições que já atuavam com homens pela eqüidade de gênero na região. E o resultado desse contato é o desenvolvimento do Programa H na Tanzânia, em parceria com a Family Health International e ajuda da United States Agency for International Development (USAID); na Costa do Marfim e em Uganda, com apoio da Johns Hopkins University; no Quênia e, novamente, em Uganda, com suporte da ONG americana Program for Appropriate Technology in Health (PATH). Até agora, o Promundo tem dedicado esforços à adaptação dos materiais do Programa H aos contextos locais.
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