|
Receita de poder
O objetivo do Projeto M, desenvolvido pela ONG Instituto Promundo, é
levantar dados que ajudem a fortalecer as mulheres de baixa renda que
vivem em favelas. Como Mariana Soares, de 17 anos, moradora do Santa
Marta, morro da Zona Sul carioca, entrevistada na primeira fase da
pesquisa. O estudo, realizado também em comunidades de Bangu (Zona Oeste do Rio),
buscou descobrir os principais fatores que levam as mulheres a ter
maior poder de negociação e maior autonomia. Na primeira fase, elas
discutiram temas como amizade, namoro, gravidez e emprego. Não depender financeiramente de ninguém é a principal característica
das “poderosas”, segundo as jovens, ao lado de determinação e
autoconfiança. “Mulher poderosa é a que faz as coisas por ela mesma e não
fica esperando cair do céu”, diz Elisângela dos Santos, 16
anos, moradora do Santa Marta.
Por trás de tanta certeza sobre o que é ser dona de seu nariz, está a presença de mulheres fortes na família. “Minha mãe ficou muito contrariada quando fiquei grávida aos 15 anos, mas sempre esteve ao meu lado. E minha tia me dá uma ajuda, ficando com o menino, para que eu possa sair nos finais de semana”, conta Ana Luíza Batista, 17 anos, também do Santa Marta. As mães são citadas como as melhores amigas e responsáveis pelo
sustento da família - elas são diaristas, chefes de cozinha e
motoristas. “Minha mãe sempre correu atrás de tudo. Aos 17 anos teve sua
primeira filha, minha irmã mais velha. Nosso pai esteve ao seu lado, mas
era ela quem chefiava a família”, conta
Mariana. Nenhuma surpresa: arrumar um emprego é o primeiro caminho para
quem busca independência na vida. A novidade, no debate sobre o
acesso ao mercado de trabalho, foi a descoberta de que o preconceito e as
limitações são maiores por conta do endereço do que por causa do
gênero. Ao falar das oportunidades de trabalho perdidas, as meninas lembraram de histórias relacionadas ao fato de serem moradoras da favela. Elas também apontaram uma série de acusações preconceituosas e infundadas sofridas pelas mães, como furto e alcoolismo. “Já fui quase contratada, mas quando disse que morava aqui (no Santa Marta), fui descartada. As pessoas pensam que a gente é marginal e que vamos planejar algum roubo”, lamenta Ana Luíza. “Este é um desafio maior ainda para nosso projeto, que está focado em gênero”, afirma a pesquisadora. A constatação definiu que uma das atividades do manual será estimular a busca de emprego nas próprias comunidades em projetos sociais. “É uma forma de participação social e ao mesmo tempo é um trabalho”, analisa Christine. Príncipe encantado já era
Sonhar em se casar com um homem que seja o provedor da casa já não faz parte dos planos das jovens entrevistadas. O casamento fica em segundo plano quando elas planejam o futuro. “Para ficar casada, só mesmo se a mulher depender do marido. Senão, hoje em dia, elas não aturam mais o homem dando um monte de ordens”, afirma Sabrina Barbosa, 19 anos. Como Ana Luíza, Sabrina ficou grávida aos 15 e enfrentou a dificuldade de educar um filho quando ainda era uma adolescente. Para as moças entrevistadas, os modelos de comportamento femininos tradicionais já não se aplicam mais aos dias de hoje. “Muitos homens acham que a mulher não tem que sair de casa, tem que viver para ele, que é propriedade deles. A mulher não aceita mais isso”, contesta Sabrina. Já a participação masculina na criação dos filhos é bem-vinda, mas não é esperada. Sabrina e Ana Luíza recebem uma ajuda dos pais de seus filhos e reconhecem que faz diferença. “O pai ajuda, mas nunca esperei nada dele, que a partir dos sete meses passou a fazer seu papel de pai. Fica com o filho um pouco no fim de semana”, conta Ana Luíza. Gravidez precoce
Diante do amadurecimento forçado pela gravidez precoce, elas ficam atentas para evitar novos filhos e não hesitam em reconhecer que, se pudessem, fariam diferente. Ana Luíza interrompeu os estudos na 8ª série do ensino fundamental e vai voltar para a escola no período noturno, quando poderá deixar o filho com a mãe ou a tia. “Tenho consciência de que devo ajudar em casa. É difícil estudar e criar filho, mas com força de vontade, sei que vou conseguir”, afirma.. Sabrina sonhava em ter um segundo filho, quando seu primeiro completasse sete anos, mas diz que mudou de idéia. “Essa história de que quem só tem um filho não tem nenhum é mentira. Quero tanto bem para ele que não vou ter outro filho. Está tudo muito caro e eu ia acabar dividindo o pouco que tenho em dois”, explica. Violência e contradição Outro tema polêmico é a violência doméstica. Elas reconhecem que a violência está muito além das agressões físicas, presente também nas palavras e atitudes, mas justificam alguns casos de agressão entre marido e mulher. “Tem mulher que 'pede'. Levanta a voz para o marido na frente de todo mundo e provoca, quer brigar”, opina Ana Luíza. Nestas horas, o diálogo é lembrado como uma possível solução, mas dificultado pelo calor das emoções e pela falta de privacidade. “E onde, neste ambiente, é possível ter diálogo? Quando vi que a coisa estava ficando feia entre minha mãe e meu padastro, dei força para ela se separar. Já está fazendo um ano”, lembra Ana. A proximidade da violência contra a mulher banaliza o problema e revela um dos pontos mais importantes que serão abordados pelas oficinas do Projeto M. “O que uma mulher faz para merecer a violência? Queremos estimular este questionamento falando sobre preconceitos e comportamentos femininos e masculinos”, explica Christine. Até o final do ano, todas as entrevistas vão ser analisadas e os métodos de trabalho serão testados para encontrar a melhor maneira de modificar atitudes. Vídeos e cartilhas serão usados nas oficinas que serão multiplicadas pelas próprias mulheres “poderosas” que participaram da primeira fase. Combatendo o machismo
O Projeto M é a primeira pesquisa feita com mulheres jovens pelo Instituto Promundo. Em 2004, a Promundo concluiu o Projeto H, realizado com homens jovens moradores de comunidades da Maré, Macacos e Bangu. A pesquisa mostrou que é possível modificar comportamentos e desenvolver atitudes positivas na prevenção da Aids e doenças sexualmente transmissíveis por meio de participação em oficinas educativas que encorajem reflexões sobre o que é ser homem. Depois de participarem de oficinas, foram observadas mudanças em
relação a comportamentos de homens e mulheres e na prevenção de
DST/AIDS. Saiba mais sobre o assunto: Instituto Promundo: www.promundo.org.br | ||||||||||
|
|