Receita de poder
Mariana Leal

Mariana (D) quer independência
Mariana (D) quer independência


O que faz uma mulher ser poderosa? Em busca dessa resposta, uma equipe de pesquisadores do Projeto M saiu em campo para entrevistar moradoras de favelas do Rio e de Recife, na faixa dos 14 aos 25 anos. Algumas respostas surpreenderam. Como a descoberta de que, por conta do preconceito, é mais fácil ser do sexo feminino do que morar numa comunidade na hora de conseguir um emprego.

O objetivo do Projeto M, desenvolvido pela ONG Instituto Promundo, é levantar dados que ajudem a fortalecer as mulheres de baixa renda que vivem em favelas. Como Mariana Soares, de 17 anos, moradora do Santa Marta, morro da Zona Sul carioca, entrevistada na primeira fase da pesquisa.

“Quando era mais nova, pensava em casar e ter seis filhos. Hoje, penso mais em mim e corro mais atrás dos meus objetivos, como terminar o ensino médio e cursar uma faculdade de Direito”, conta Mariana. Para ela, uma mulher com poder de decisão "é aquela que se sustenta, não depende de ninguém e nem fica esperando a ajuda dos outros”.

O estudo, realizado também em comunidades de Bangu (Zona Oeste do Rio), buscou descobrir os principais fatores que levam as mulheres a ter maior poder de negociação e maior autonomia. Na primeira fase, elas discutiram temas como amizade, namoro, gravidez e emprego.

“A opinião das jovens entrevistadas vai servir para elaborar o material do projeto e nos mostrar como devemos realizar ações educativas sobre violência, saúde sexual reprodutiva e desigualdade de gêneros”, explica Christine Ricardo, pesquisadora do Instituto Promundo.

As entrevistas serão usadas para criar manuais que vão orientar oficinas educativas a ser realizadas, em 2006, em cidades do Brasil, México e Índia.

Não depender financeiramente de ninguém é a principal característica das “poderosas”, segundo as jovens, ao lado de determinação e autoconfiança. “Mulher poderosa é a que faz as coisas por ela mesma e não fica esperando cair do céu”, diz Elisângela dos Santos, 16 anos, moradora do Santa Marta.

Sabrina enfrentou gravidez cedo
Sabrina enfrentou gravidez cedo

Por trás de tanta certeza sobre o que é ser dona de seu nariz, está a presença de mulheres fortes na família. “Minha mãe ficou muito contrariada quando fiquei grávida aos 15 anos, mas sempre esteve ao meu lado. E minha tia me dá uma ajuda, ficando com o menino, para que eu possa sair nos finais de semana”, conta Ana Luíza Batista, 17 anos, também do Santa Marta.

As mães são citadas como as melhores amigas e responsáveis pelo sustento da família - elas são diaristas, chefes de cozinha e motoristas. “Minha mãe sempre correu atrás de tudo. Aos 17 anos teve sua primeira filha, minha irmã mais velha. Nosso pai esteve ao seu lado, mas era ela quem chefiava a família”, conta Mariana.

Preconceito contra a favela

Nenhuma surpresa: arrumar um emprego é o primeiro caminho para quem busca independência na vida. A novidade, no debate sobre o acesso ao mercado de trabalho, foi a descoberta de que o preconceito e as limitações são maiores por conta do endereço do que por causa do gênero.

A opinião das entrevistadas surpreendeu os pesquisadores.  “Pensávamos que elas sofressem um preconceito maior por serem mulheres e que tivessem uma escolha profissional limitada por causa disso”, revela Christine.

Ao falar das oportunidades de trabalho perdidas, as meninas lembraram de histórias relacionadas ao fato de serem moradoras da favela. Elas também apontaram uma série de acusações preconceituosas e infundadas sofridas pelas mães, como furto e alcoolismo. “Já fui quase contratada, mas quando disse que morava aqui (no Santa Marta), fui descartada. As pessoas pensam que a gente é marginal e que vamos planejar algum roubo”, lamenta Ana Luíza.

“Este é um desafio maior ainda para nosso projeto, que está focado em gênero”, afirma a pesquisadora. A constatação definiu que uma das atividades do manual será estimular a busca de emprego nas próprias comunidades em projetos sociais. “É uma forma de participação social e ao mesmo tempo é um trabalho”, analisa Christine.

Príncipe encantado já era

Elisângela e Ana Luíza: exemplo em casa
Elisângela e Ana Luíza: exemplo em casa

Sonhar em se casar com um homem que seja o provedor da casa já não faz parte dos planos das jovens entrevistadas. O casamento fica em segundo plano quando elas planejam o futuro.

“Para ficar casada, só mesmo se a mulher depender do marido. Senão, hoje em dia, elas não aturam mais o homem dando um monte de ordens”, afirma Sabrina Barbosa, 19 anos. Como Ana Luíza, Sabrina ficou grávida aos 15 e enfrentou a dificuldade de educar um filho quando ainda era uma adolescente.

Para as moças entrevistadas, os modelos de comportamento femininos tradicionais já não se aplicam mais aos dias de hoje. “Muitos homens acham que a mulher não tem que sair de casa, tem que viver para ele, que é propriedade deles. A mulher não aceita mais isso”, contesta Sabrina.

Já a participação masculina na criação dos filhos é bem-vinda, mas não é esperada. Sabrina e Ana Luíza recebem uma ajuda dos pais de seus filhos e reconhecem que faz diferença. “O pai ajuda, mas nunca esperei nada dele, que a partir dos sete meses passou a fazer seu papel de pai. Fica com o filho um pouco no fim de semana”, conta Ana Luíza.

Gravidez precoce

Entrevistas serão usadas em manual
Entrevistas serão usadas em manual

Diante do amadurecimento forçado pela gravidez precoce, elas ficam atentas para evitar novos filhos e não hesitam em reconhecer que, se pudessem, fariam diferente.

Ana Luíza interrompeu os estudos na 8ª série do ensino fundamental e vai voltar para a escola no período noturno, quando poderá deixar o filho com a mãe ou a tia. “Tenho consciência de que devo ajudar em casa. É difícil estudar e criar filho, mas com força de vontade, sei que vou conseguir”, afirma..

Sabrina sonhava em ter um segundo filho, quando seu primeiro completasse sete anos, mas diz que mudou de idéia. “Essa história de que quem só tem um filho não tem nenhum é mentira. Quero tanto bem para ele que não vou ter outro filho. Está tudo muito caro e eu ia acabar dividindo o pouco que tenho em dois”, explica.

Violência e contradição

Outro tema polêmico é a violência doméstica. Elas reconhecem que a violência está muito além das agressões físicas, presente também nas palavras e atitudes, mas justificam alguns casos de agressão entre marido e mulher. “Tem mulher que 'pede'. Levanta a voz para o marido na frente de todo mundo e provoca, quer brigar”, opina Ana Luíza.

Nestas horas, o diálogo é lembrado como uma possível solução, mas dificultado pelo calor das emoções e pela falta de privacidade. “E onde, neste ambiente, é possível ter diálogo? Quando vi que a coisa estava ficando feia entre minha mãe e meu padastro, dei força para ela se separar. Já está fazendo um ano”, lembra Ana.

A proximidade da violência contra a mulher banaliza o problema e revela um dos pontos mais importantes que serão abordados pelas oficinas do Projeto M. “O que uma mulher faz para merecer a violência? Queremos estimular este questionamento falando sobre preconceitos e comportamentos femininos e masculinos”, explica Christine.  

Até o final do ano, todas as entrevistas vão ser analisadas e os métodos de trabalho serão testados para encontrar a melhor maneira de modificar atitudes. Vídeos e cartilhas serão usados nas oficinas que serão multiplicadas pelas próprias mulheres “poderosas” que participaram da primeira fase.

Combatendo o machismo

Equipe do Promundo do Santa Marta
Equipe do Promundo do Santa Marta

O Projeto M é a primeira pesquisa feita com mulheres jovens pelo Instituto Promundo. Em 2004, a Promundo concluiu o Projeto H, realizado com homens jovens moradores de comunidades da Maré, Macacos e Bangu. A pesquisa mostrou que é possível modificar comportamentos e desenvolver atitudes positivas na prevenção da Aids e doenças sexualmente transmissíveis por meio de participação em oficinas educativas que encorajem reflexões sobre o que é ser homem.

Depois de participarem de oficinas, foram observadas mudanças em relação a comportamentos de homens e mulheres e na prevenção de DST/AIDS.
 
O projeto atual conta com o apoio da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, do governo federal, para elaborar as técnicas educativas para o fortalecimento feminino.

Saiba mais sobre o assunto:

Instituto Promundo: www.promundo.org.br


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